Candidato chileno defende medidas duras contra imigração irregular em meio a tensões na fronteira
O candidato presidencial do Chile, que lidera as pesquisas eleitorais, tem intensificado as tensões na fronteira com sua retórica rigorosa contra a imigração, explorando a crescente hostilidade do país em relação aos estrangeiros. Isso sinaliza uma possível mudança significativa em direção a políticas mais isolacionistas.
Após avançar para o segundo turno das eleições no mês passado, José Antonio Kast viajou para Arica, cidade próxima à fronteira com o Peru, para gravar um vídeo advertindo imigrantes sem documentação regular a deixarem o país voluntariamente ou enfrentarem a deportação. O candidato propõe criminalizar a imigração irregular.
‘Se vocês não partirem por vontade própria, nós os deteremos, os deportaremos e vocês sairão daqui apenas com a roupa do corpo’, declarou Kast, com o deserto do Atacama ao fundo. Suas declarações contribuíram para um breve incidente diplomático entre os dois países.
Em resposta, o governo peruano declarou estado de emergência e mobilizou tropas para a fronteira, temendo um possível fluxo repentino de imigrantes saindo do Chile. As nações estabeleceram um grupo de trabalho conjunto para tratar da questão migratória. A adversária de Kast, Jeannette Jara, também criticou a administração de esquerda, na qual atuou como ministra do Trabalho, por sua resposta considerada lenta.
Contudo, semanas antes do segundo turno, não havia uma crise humanitária evidente na região fronteiriça ao norte de Arica. Relatos indicam que, até recentemente, pequenos grupos de imigrantes sem documentos se reuniam no local à noite para tentar entrar no Peru. Após a mobilização militar peruana, a presença de soldados na área se tornou mais visível do que a de imigrantes utilizando rotas informais.
A mensagem de Kast, no entanto, parece ter alcançado seu objetivo principal.
‘Se Kast for eleito presidente, a situação pode se complicar’, afirmou Franmary Sereno, uma imigrante venezuelana de 46 anos. Ela faz parte dos milhares de pessoas que entraram no Chile por vias irregulares vindas do Peru e da Bolívia na última década.
Há quatro anos, ela deixou o Peru e foi para o Chile quando seu filho foi hospitalizado com tuberculose em Iquique. Após a morte do filho, sua mãe, que permanece na Venezuela, agora a aconselha a ‘se preparar para partir’ antes que as ameaças de Kast se concretizem.
Pressão para a saída
Nas vésperas da eleição decisiva, o tema da imigração ocupou um lugar central na campanha. Kast, filho de imigrantes alemães do pós-guerra, intensificou seus alertas com o objetivo de incentivar a autodeportação, em uma estratégia que lembra políticas adotadas por outros líderes internacionais.
Dirigindo-se a pais imigrantes em situação irregular com filhos nascidos no Chile, Kast foi direto. Em entrevista à mídia local, ele afirmou que esses pais ‘teriam que escolher entre assumir a responsabilidade pelos filhos ou entregar seus cuidados ao Estado’.
Em seus comícios, o candidato frequentemente faz uma contagem regressiva dos dias que restariam para imigrantes deixarem o país antes de sua eventual posse.
Essa perspectiva é aguardada por muitos chilenos que associam o aumento da imigração a uma escalada nos índices de criminalidade.
‘Arica costumava ser um paraíso, quase uma ilha. Podíamos circular com segurança ao amanhecer, ir a qualquer lugar a pé. Era muito tranquilo. Não havia o tipo de criminalidade que vemos hoje’, disse Felipe Albarracín, um gerente aeroportuário que tem família na região. ‘A mudança nos últimos cinco anos foi drástica.’
Albarracín declarou seu voto em Kast. ‘Estamos transbordando de pessoas’, afirmou. ‘Alguém precisa restabelecer a ordem.’
Moradores locais também relatam que hospitais e escolas estão sobrecarregados devido ao grande influxo populacional. Um taxista em Arica resumiu a frustração: pacientes aguardam anos por cirurgias, enquanto recém-chegados supostamente são atendidos primeiro. Ele também planeja votar no candidato que promete medidas mais duras.
‘O discurso de Kast foi fundamental para romper a inércia’ em relação ao tema migratório, avaliou um ex-funcionário do governo anterior. ‘Seu papel não é apenas levantar a questão, mas confrontar uma realidade que outros tentam minimizar’, complementou, citando o crescimento da população estrangeira no sistema carcerário chileno.
A opinião pública parece apoiar amplamente políticas migratórias mais restritivas. Pesquisas recentes indicam que uma grande maioria dos chilenos é favorável a medidas mais rigorosas, um percentual significativamente mais alto do que em outros países da região.
Reação do governo
Autoridades chilenas têm procurado acalmar os ânimos.
Durante os recentes eventos na fronteira, o ministro do Interior, Álvaro Elizalde, afirmou que o fluxo migratório formal para o Peru não excedeu os níveis habituais para o período, apesar das medidas adotadas pelo país vizinho e de protestos pontuais.
As forças de segurança peruanas não se pronunciaram imediatamente sobre os eventos.
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